Setor

Folha de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Ilustrada/Mônica Bergamo, E-2 - A luta continua
O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-2 - Todas as faces do presidente
Jornal da Tarde – SP, 26/11/2004, Divirta-se, 12 - Sábado á noite: cinema no parque
O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-1 - Próxima parada: Pólo Norte
Folha de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Ilustrada, E-4 - Os homens do presidente


Associados

Extra – RJ, 26/11/2004, Cinema, 4 - Fim de semana de cinema de graça
O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-3 - Classe operária vai ao cinema
Correio Braziliense – DF, 21/11/2004, Caderno C, 8 - As vidas de Maria abre o Festival de Brasília




Extra – RJ, 26/11/2004, Cinema, 4

Fim de semana de cinema de graça

Leonardo Ferreira

 O fim de semana é perfeito para quem quer ir ao cinema ver um bom filme sem pagar nada. Em Búzios, uma ses-são de cinema de graça pode ser a melhor opção depois da praia. Serão exibidos no Gran Cine Bardot, próximo à Rua das Pedras, filmes iné-ditos no circuito. Hoje tem o brasileiro "Tainá 2 - A aventura continua", às 19h, e o chinês "A casa das adagas voadoras", de Zhang Yi-mou, que passa às 21h. O no-vo filme de Bernardo Berto-lucci, "Os sonhadores", tem sessão às 23h. Amanhã é dia do espera-do "O casamento de Romeu e Julieta", dirigido por Bru-no Barreto.

 A comédia será exibida às 21h e tem nomes como Luana Piovani, Marco Ricca, Mel Lisboa e Leonar­do Miggiorin no elenco. Mais tarde, às 23h, é a vez de "Código 46", dirigido por Michael Winterbottom e es­trelado por Tim Robbins. As senhas devem ser retiradas meia‑hora antes das sessões. Já o Projeto Sessão Curta Cinema percorre os bairros do Rio. Hoje o público pode conferir curtas‑metragens inéditos, às 16h e às 18h, na Biblioteca Popular Joaquim Manuel de Macedo, em Paquetá. Hoje tem sessão às 19h na Fundação Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. Amanhã tem curta‑metra­gem no Espaço Cultural Afroreggae, em Ipanema, às 17h, e no domingo, também às 17h, no Memorial Getúlio Vargas, na Glória. No Cinemark Botafogo também haverá sessão gra­tuita de curta‑metragem. O público confere até o dia 8 de dezembro, sempre às 18h, uma seleção de curtas pro­duzidos no Nordeste.

Chaplim na tela

 MARATONA

Na Cavídeo, na Cobal do Humaitá, o fim de semana é em homena­gem a Charles Chaplin, com uma maratona gratuita de filmes do ator. Hoje, amanhã e domingo há sessões às 15h, às 17h e às 19h.

CLÁSSICOS

Hoje o destaque é o melancólico "Luzes da ribalta", às 19h. Ama­nhã no mesmo horário tem "0 grande dita­dor". No domingo, às 17h, será exibido "0 circo". A maratona aca­ba com "Tempos mo­dernos", às 19h.

 

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O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-3

Classe operária vai ao cinema

Lucinéia Nunes

Maria Elicélia Feitosa da Silva, a servente Zélia, trabalha no sindicato dos metalúrgicos, em São Bernardo do Campo, desde 1976, ano em que Lula assumiu a presidência da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Durante o período das grandes paralisações, no fim daquela década, ela escondia a Tribuna Metalúrgica dentro da roupa para distribuí-la clandestinamente. Zélia também se orgulha por ter salvo uma cópia do filme Linha de Montagem, de Renato Tapajós (importante registro histórico sobre a greve), escondendo-o dentro de uma sacola de feira para despistar os policiais. "Meu maior sonho é ver Lula presidente do Brasil e servir café a ele em Brasília", disse ela ao cineasta Eduardo Coutinho, em entrevista no período das eleições de 2002.

Além da história de Zélia, o que aconteceu àqueles metalúrgicos, relativamente anônimos, que participaram dos movimentos grevistas de 1979 e 80? No documentário Peões, Eduardo Coutinho mostra a trajetória de outras 20 pessoas, por meio de depoimentos, em geral, emocionados, no qual relembram suas origens, percalços e alegrias do trabalho nas fábricas, o reflexo da militância política em suas casas e uma visão pessoal do então líder operário Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente do Brasil no dia 27 de outubro de 2002, último dia de gravação do longa-metragem. São declarações cheias de vida, de uma gente que lutou por seus direitos e ajudou a construir parte da história do País.

Na última terça-feira, mais de 500 pessoas, entre atuais e ex-metalúrgicos, dirigentes sindicais e personagens de Peões, entre eles a servente Zélia, lotaram as duas sessões especiais do longa no Cinemark - Extra Anchieta. "O filme é muito bom", diz Zélia ainda emocionada, ao sair da sala de exibição. "Eu adoro o peão Lula. Foi o maior privilégio vê-lo chegar à Presidência. Teremos muitas vitórias com esse governo. Ele é um grande homem, inteligente. Ainda espero realizar meu desejo de servi-lo em Brasília."

Sorridente, Luíza Maria de Farias, a Tia, também foi à sessão, exibindo na lapela do conjunto verde um broche com a foto de Lula. Paraibana, mãe de sete filhos, ela comandou por muitos anos a lanchonete do sindicato. "Toda política do PT e do sindicato passou por aquela lanchonete", diz a Tia no filme. "Meu marido, o Zito, virou metalúrgico depois que me conheceu. Uma vez ele quis furar a greve e eu ataquei uma pedra nele. Naquela época nós batíamos nos homens", ela conta.

Uma parte de seu depoimento, no qual falava que o atual presidente bebia demais, foi cortado da versão final. Segundo o diretor, para protegê-la. "O filme é sobre metalúrgicos que participaram das greves, a vida deles antes, durante e depois. Por isso, fiz questão de preservar o auto-retrato de cada um, não prejudicá-los, mas valorizá-los pelo que me deram", afirma Coutinho. Luíza não quis falar sobre o assunto. "Já passei uma régua", diz ela. "Foi sofrido dar aquele depoimento. Mas o filme é ótimo e importante para a minha vida e de meus companheiros."

Para Djalma Bom, que no longa mostra um dos lugares de onde Lula comandava os célebres comícios de São Bernardo, a obra registra um momento relevante na história daqueles trabalhadores. "Fomos os artistas principais e nosso maior representante hoje é presidente da República. O filme é sincero", ele comenta.

Entre tantos personagens com quem Coutinho conversou durante sua peregrinação pelo ABC paulista, Diadema e até no Ceará, quase todos descobertos em publicações, fotos e filmes da época, estão, por exemplo, o aposentado Antônio Ferrasoli, que dá um bonito e singelo depoimento com a ajuda da filha Maria Angélica; e Geraldo Aniceto de Souza, que ainda trabalha fazendo "bicos" como soldador. "Não quero que meus filhos sejam peões como eu", ele diz no filme, depois de explicar o significado da palavra peão na década de 1970. E questiona Coutinho: "Você já foi peão?" Com o mesmo nó na garganta, ele comentou ao sair da sala que "as pessoas não têm vergonha de falar de onde vieram" e hoje não é sindicalizado pois pesa no orçamento. Coutinho, que estava ali para acompanhar a reação dos espectadores, disse que tudo valeu a pena. "Vi homens de 40/50 anos grudados na tela, porque é a história deles. Foi extraordinário."

Documentaristas: Se fosse eu...

Não sei se eu cortaria ou não a cena que o Coutinho cortou de Peões. Mas, com certeza, levaria em conta o pedido de um entrevistado para tirar alguma cena. Não faço documentários para agradar aos meus personagens, mas também não quero prejudicar ninguém. O sujeito documentado, no caso o presidente Lula, teve boa vontade imensa com o documentarista. Então, por que não ser cúmplice nesta situação de montagem?

Kiko Goifman

Não acho que o corte configure uma censura política. Às vezes, cortar é uma questão de elegância ou tem motivação ética, em se tratando do presidente da República ou não

André Klotzel

Acho o corte legítimo, uma opção do diretor. Certamente, o filme é muito mais do que esta polêmica

Ricardo Dias

Eu vi a cena que foi cortada e cheguei a comentar com o Coutinho que a imprensa ia explorá-la negativamente. Mas ela não é relevante para traduzir o que foi o movimento operário do ABC. O documentário é um processo de nudez e a câmera é um divã, um confessionário. Coutinho cortou a cena para preservar a personagem e fez muito bem. O direito de imagem é inegociável

Evaldo Mocarzel

Não tenho nada contra o direito dele de cortar o filme. O documentário é uma oportunidade de termos acesso ao Lula. E, neste caso, a ausência daquele depoimento não altera o conteúdo do filme. Sinceramente, acho que estão fazendo tempestade em copo d'água. Acho que o Eduardo Coutinho é um grande documentarista e sabe o que está fazendo

Aurélio Michiles

 

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Correio Braziliense – DF, 21/11/2004, Caderno C, 8

As vidas de Maria abre o Festival de Brasília

Tiago Faria

Para qualquer diretor disposto ao desafio, transformar Brasília em cinema pode apontar para um velho e conhecido caminho de simplificação. Para chavões que associam a capital a parque de diversão de políticos corruptos e a um ritmo de vida meio acinzentada, marcado pela frieza. Se evitar estereótipos do tipo já é algo raro, então a missão encarada pelo cineasta paulista Renato Barbieri, radicado na cidade há dez anos, é de especial ambição. Em As vidas de Maria, produção brasiliense escalada para abrir o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o Distrito Federal não é mero cenário — é quase protagonista. Pode parecer só um filme.

Mas, quando subir ao palco da Sala Villa- Lobos terça-feira para apresentar a obra, em hors concours, Barbieri estará em uma noite de primeira vez. Documentarista com 20 anos de experiência, o diretor de Atlântico Negro — Na rota dos orixás estréia na ficção com um projeto cinematográfico que tem a intenção de percorrer, mesmo que indiretamente, a história de Brasília: do nascimento, em 1960, a 2003. A dividir atenções com a criação de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, no centro do filme está Maria. Uma mulher batalhadora, determinada, que nasce naquele mesmo 21 de abril de 1960. ‘‘Ela é uma personagem bem brasiliense. Brasília tem esse frescor de ser síntese do Brasil. Dialoga com todas as regiões do Brasil e não tem preconceito com nenhuma delas’’, explica Barbieri.

‘‘O Brasil já tem uma cultura de síntese, de inclusão. E Brasília é a síntese dessa síntese.’’ Maria, interpretada por Ingra Liberato (e, na fase adolescente, Sthefany Brito), não só nasce junto com a cidade como vivencia — mesmo quando de raspão — momentos históricos decisivos para o DF e o país. Quando pequena, vê um tanque militar em plena rua, indício da ditadura. Pré-adolescente, torce pelo Brasil na Copa do Mundo de 1970. A caminho do casamento, na Igreja Dom Bosco, vê um grupo de manifestantes pelas Diretas Já. Mais adiante, lá está ela, em plena passeata pelo impeachment de Fernando Collor. Ainda que embaralhada com a trajetória da cidade, Maria não foi delineada como um símbolo para Brasília.

‘‘Isso nem é possível, Seria muita pretensão. Maria é uma mulher guerreira, que luta pelo espaço no mundo’’, explica. Nascida entre os candangos que construíram a capital, a personagem sobe degraus na escada social ao ser criada pela família de um rico deputado e depois empurrada para um casamento de conveniência. O foco na vida de Maria só é encontrado quando ela conhece Tiago (Gustavo Melo), negro e homossexual, responsável por dar ao filme o tom de crítica à discriminação da sociedade brasileira.

Musa brasiliense

‘‘Queríamos dar traços brasilienses à personagem principal sem cair no clichê, sem mostrar alguém diretamente envolvido com o poder. Ela é uma mulher comum que decide ser feliz, que opta por isso’’, diz o diretor, que contou com atores da cidade como Dora Wainer, Adriano Siri, Bruno Torres André Amaro. Dificuldade maior que a de compor essa mulher de ficção, em roteiro escrito por Di Moretti (Latitude zero, As filhas do vento), só o percurso tomado pelo cineasta de passar do formato documental para o de ficção. ‘‘Esse filme foi minha graduação. Por incrível que pareça, no documentário tudo é mais controlado. A equipe cabe numa van. Na ficção, a complexidade é muito maior. Usamos cerca de 500 figurantes.’’ O papel do diretor, no caso, também muda radicalmente. ‘‘Temos que construir a realidade. Um detalhe errado é capaz de derrubar uma cena inteira’’, observa. Orçado em R$ 1 milhão e descrito por Barbieri como ‘‘um filme de época de baixo orçamento’’, As vidas de Maria (um dos três longas brasilienses que serão exibidos fora da competição no festival, junto com Araguaya, a conspiração do silêncio e Dom Helder Camara — O santo rebelde) já tem distribuição garantida, pela Pandora Filmes, em abril do próximo ano. ‘‘A gente não quer fazer filme para ficar na prateleira’’, diz. Maria, agora, é do Brasil.

37º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO

De terça a 30 de novembro. Mostra de filmes em 35mm e 16mm, no Cine Brasília, Cinemark Pier 21,Centro Cultural Banco do Brasil e Centro Cultural Sesi de Taguatinga. Cerimônia de abertura terça-feira, 20h30, com a exibição de As vidas de Maria e performance da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Evento apenas para convidados.

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Folha de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Ilustrada/Mônica Bergamo, E-2

A luta continua

A TV Globo reuniu representantes de suas afiliadas em um hotel em São Paulo -entre outros, Fernando Sarney, filho de José Sarney, da Globo do Maranhão, e ACM Júnior, filho de Antônio Carlos Magalhães, da Globo da Bahia. O assunto do primeiro dia do encontro, que acontece todos os anos, foi um só: a criação da Ancinav, a agência que regulará o setor -a TV Globo está bombardeando a proposta. A exposição do tema foi feita pelo próprio João Roberto Marinho.

A luta continua 2

Ficou claro para os representantes o seguinte: a emissora lutará para mudar o projeto agora, no momento em que ele ainda está sendo discutido no âmbito do Executivo. Caso vá para o Congresso Nacional, as afiliadas podem entrar em campo para influenciar parlamentares.

 

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O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-2

 

Todas as faces do presidente

Luiz Zanin Oricchio

 

Pode-se dizer que Peões e Entreatos são dois filmes notáveis, ou também que formam apenas um único - e também notável - filme. De fato, os dois documentários, que estréiam hoje, foram pensados em conjunto. Fazem parte de um mesmo projeto e revelam alguma coisa do verso e o anverso de um mesmo processo histórico - aquele que levou um líder de movimentos grevistas de 1979 a 1980 ao Palácio do Planalto em 2002.

 

Em São Paulo, os filmes entram em cartaz nas mesmas três salas de exibição, em horários alternados - justamente para se ver como um pacote. São filhos da mesma proposta, mas seguem caminhos divergentes, opostos mesmo, ainda que complementares. Entreatos, de João Moreira Salles, é um filme de observação, e joga seu olhar sobre os bastidores da campanha de Lula à presidência em 2002. Peões, de Eduardo Coutinho, é um filme de depoimentos. Ele ouve, no presente, os anônimos trabalhadores que participaram no passado das greves do ABC. Peões será exibido hoje à noite em concurso no Festival de Brasília. Entreatos fecha o mesmo festival, fora de concurso, dia 30.

 

Em conversa com o Estado, os diretores falam desse projeto comum. E contam como chegaram a duvidar de que eles pudessem ser feitos, em especial Entreatos, um retrato dos bastidores de um poder em formação. "No começo, achei que seria o registro sobre a impossibilidade de fazer um filme. A grande surpresa foi ter o acesso permitido e de maneira extraordinária. No primeiro dia de filmagem, eu já tinha um material que não conheço igual em filme sobre política e sobre o poder. Lula buscando apoio do grande capital. Ligando para o José Cutrale, tentando o apoio do empresariado, desejando esse apoio e me deixando filmar isso tudo, me pareceu extraordinário", diz João Moreira Salles.

 

A opção de Coutinho o levou em direção oposta. Se Moreira Salles registrava sobretudo imagens e falas de gente de alguma forma já ligada ao poder, Coutinho procurou aqueles que, segundo ele, eram o seu contrário, pois "nada tinham a perder". Gente do povo, gente anônima, que havia participado, de forma decisiva ou forma lateral, das longínquas greves do ABC. Peões é um documento extraordinário, que deve ser visto tanto com a razão como com a emoção. Porque nele se ouve a fala da esperança, a reconstituição de um momento que todos sentem como crucial em suas vidas, mas também um ruído de fundo melancólico, porque aquela utopia buscada não se concretizou.

 

"De fato, existe um arco melancólico que passa nos dois filmes: são as condições dadas do mundo de hoje. Eu pessoalmente não acredito na ruptura, mas acho interessante sob a forma da utopia, e ela existe no filme do Eduardo, naquele Lula que enfrenta o regime militar. Aquele Lula propõe um sonho muito maior do que o Lula do meu filme. Aqueles que buscavam no meu filme algum resto dessa utopia ficarão entristecidos. O Lula é aquele que desejou ganhar a eleição e para ganhar precisou se desfazer de qualquer tipo de sonho. Não é decepção - é a percepção da realidade", diz Salles.

 

Coutinho concorda: "Na época da campanha de 2002 eles queriam fazer um comício no Estádio de Vila Euclides, palco das grandes reuniões do tempo da greve. O comício eleitoral acabou não sendo feito e várias desculpas foram dadas, que o estádio não tinha condições, etc. O fato é que hoje, um comício político do Lula, não encheria o estádio, seria um fracasso."

 

João Moreira Salles acrescenta: "Essa melancolia é a do desaparecimento desse mundo. Naquela época, parar São Bernardo significava parar o Brasil, hoje não significa mais nada. O processo produtivo se esfacelou se espalhou pelo Brasil e para fora também. É desalentador você achar que só exista um único discurso, uma grande narrativa no mundo e acho que o Lula seguiu essa Realpolitik. O que está no filme é a aceitação da regra do jogo."

 

Tanto Peões como Entreatos estão sendo lançados num momento complicado mas também muito rico da história nacional. O governo atual segue a política econômica traçada pelo anterior, num reconhecimento da força das coisas, da inércia dos determinantes macroeconômicos e do pouco espaço de manobra concedido para as utopias e as rupturas. Há alívio de um lado e frustração de outro. E, no entanto, segundo os documentaristas, esse Lula de hoje, que decepciona a esquerda do seu próprio partido, é no fundo o mesmo Lula da época das greves. Só não vê quem não quer.

 

Segundo João Moreira Salles, Entreatos ajuda a enxergar essa característica do presidente: "O sintoma do filme é esse: dá sinais de que o Lula não é o homem da ruptura nem nunca foi o homem da ruptura. A ascensão social dele revela não um desejo de ruptura mas de incorporação." O cineasta cita duas cenas. Numa delas Lula conta da sua felicidade quando comprou um TL, antigo modelo da Volkswagen, e diz que "se sentiu um rei" no volante do carro de segunda mão. Em outra, o atual presidente conta que ficou decepcionado quando o censo do IBGE passou em sua casa e só pediu os dados dos moradores e não quis saber que seus bens de consumo lá existiam. "Isso é o essencial, é o mesmo Lula, com o mesmo sonho de acesso aos bens materiais, a uma vida que é burguesa, ou pelo menos de classe média", diz Moreira Salles.

 

Entreatos fincou sua barraca no olho do furacão, no centro duro de um poder em formação. Eram esperados problemas, que surpreendentemente não vieram. Coutinho trabalhou mais na periferia, com personagens menos controversos e portanto não esperava nenhum tipo de complicação. E no entanto ela veio, sob a forma de uma cena cortada, em que uma funcionária de lanchonete dizia que nos tempos do ABC o presidente bebia muito. Coutinho se explicou longamente sobre a cena e reafirma que a podou da versão final para "proteger a personagem e não o Lula".

 

Mas Coutinho acha que não adianta, que sua decisão foi soberana, mas ninguém vai acreditar nela mesmo: "Tudo isso é natural, porque como você está mexendo com a política, entra nessa coisa terrível que é ética da suspeita, na qual tudo é suspeito. Então se começa a falar muito de ética, o que é terrível, porque quem mais fala de ética são os patifes. Você entra num outro mundo, e como desfazer esses equívocos?"

 

João acrescenta: "O problema de fazer um filme como o meu é as pessoas acharem que ele existe para repercutir alguma coisa do noticiário. A bebida é um caso específico, a briga de galo é outra. Mas o filme está pronto desde dezembro do ano passado. É um filme vivo. Porque Lula é presidente, está gerando notícias todo dia e à medida em que essas notícias aparecem elas vão gerando novos sentidos no filme."

 

'Peões': no coração da classe trabalhadora

Coutinho nunca se envolveu tanto com entrevistados

 

Momentos - um deles nem foi filmado por Eduardo Coutinho. Pertence a um documento de época, naquele tempo em que Luiz Inácio Lula da Silva era só um metalúrgico que liderava as greves no ABC. Só? Lula fuma, nervosamente, tragadas rápidas, uma após a outra. Avança e diante dele está a massa humana - os metalúrgicos que fizeram as greves, por volta de 1980. Elas podem não ter resultado em ganhos substanciais para a categoria, do ponto de vista econômico, mas foram fundamentais para o desenvolvimento de uma consciência política, não só deles, mas da nação. Outro momento foi filmado por Coutinho. É a entrevista de João Chapéu. Ele lembra a mulher, as greves. Emociona-se e pára, tentando segurar a emoção e impedir que lhe venham as lágrimas.

 

Temos a história e a visão dos que seriam os excluídos. E outro momento, ainda. Geraldinho, no desfecho. Ele também se emociona tanto que o diretor se cala e deixa a câmera rodando para que o entrevistado se recomponha. São momentos de emoção e a emoção dá o tom de Peões, o documentário de Coutinho que forma um díptico com Entreatos, de João Moreira Salles. Do ponto de vista cinematográfico, o documentário de Coutinho é melhor, por mais reveladores que sejam trechos do trabalho de João. Para Coutinho, foi um risco talvez maior do que os que ele vem correndo no cinema que realiza. Coutinho gosta de dizer que seria incapaz de filmar pessoas que lhe provoquem aversão. Um torturador, por exemplo. Aqui, o risco é que ele tem empatia demais pelas pessoas que entrevista. Às vezes, percebe-se que Coutinho se policia para criar um distanciamento.

 

Era um velho sonho do maior documentarista brasileiro - um filme sobre o ABC. Coutinho de alguma forma fez o seu Viramundo, se é que se pode fazer a ponte entre Peões e o clássico de Geraldo Sarno nos anos 1960. Ambos são filmes sobre nordestinos que emigraram para São Paulo. No de Sarno, alguns alcançam o que buscavam no Sul, que, para eles, é uma terra de fartura. Outros voltam para casa com as esperanças desfeitas e há os que buscam refúgio para o seu desconsolo no misticismo. Coutinho conta agora as história dos nordestinos que foram companheiros de luta do futuro presidente no ABC.

 

Muitos voltaram para o Nordeste, tendo alcançado algum bem material. O que conseguiram foi a cidadania. Lula, no documentário de João Moreira Salles, define-se como resultado da consciência política da classe trabalhadora no ABC. Ela é expressa por Elisa, tão tocada pela frase do Hino Nacional que diz: "Verás que um filho teu não foge à luta." Ou por Zélia, que conta como e por que salvou a cópia de Linha de Montagem, o documentário de Renato Tapajós a cujas imagens Coutinho recorre. Aquelas imagens são a nossa memória. Perdidas, corriam o risco de entregar ao esquecimento um momento tão decisivo da história do País. Peões é uma magnífica lição de cinema e, com o perdão pelo que virou palavrão, humanismo. (L.C.M.)

 

‘Entreatos’: no avião, como futuro presidente

 

Havia, em Nelson Freire, soluções de montagem que tornavam um tanto previsível o documentário sobre o grande pianista. E havia os momentos fulgurantes – Nelson Freire tocando ou ouvindo Madalena Tagliaferro tocar. Entreatos tem, de novo, escolhas que parecem discutíveis. João Moreira Salles fez um documentário sobre Luiz Inácio Lula da Silva em campanha para se tornar presidente do Brasil. Alguns desses momentos nascem da sua vontade de expor o próprio método de trabalho e a melhoria na qualidade do acesso ao candidato. São instantes breves.

 

O filme começa a 11 dias da eleição no primeiro turno. Passa para seis dias. Não houve nada de interessante nesses cinco dias excluídos da montagem final de Entreatos? E aí a coordenadora de produção avança por um corredor, seguida pela câmera. A cena identifica a personagem e o lugar, mas, a rigor, não significa nada. Há vários momentos assim em Entreatos. E existem aqueles momentos que são esplendorosos. José Dirceu interpela a equipe – quem são aquelas pessoas? O documentário poderia ter morrido ali. E duas cenas de avião, porque era justamente naqueles momentos que Lula relaxava e falava de forma mais espontânea para a câmera. Na primeira, partindo de Lech Walesa, faz uma bela análise conjuntural para explicar como e por que, apesar de todo o apoio internacional, o sindicalista polonês fracassou.

 

Ele não tinha uma base de apoio como a de Lula. É o que o hoje presidente repete ao longo de todo o filme. Lula assume-se como resultado da consciência política da classe trabalhadora no ABC. Na outra, quando o fotógrafo Walter Carvalho lhe pergunta se não gostaria de ter um momento de solidão, Entreatos (Br/ 2004, 115 min.). Documentário. Dir. João Moreira Salles. Livre. Espaço Unibanco 1 - 15h45, 19h45. Metrô Santa Cruz 5 - 11h50, 16h40, 21h20. Unibanco Arteplex 3 - 13h, 17h, 21h20. Cotação: Bom C Serviço só para ele, Lula fala de si com total honestidade e franqueza.

 

Antecipando-se às críticas, diz o que poderá ocorrer com o Partido dos Trabalhadores no poder. Eduardo Coutinho, em Peões, cortou a referência que uma entrevistada fazia ao gosto de Lula pela bebida. O próprio Lula diz que não tem saudade do seu macacão de operário e conta, em Entreatos, de todas as pingas. João Moreira Salles revela o homem e o político – o homem político. Entreatos pode deixar o espectador menos chapado do que Peões, mas tem força.

 

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Jornal da Tarde – SP, 26/11/2004, Divirta-se, 12

Sábado á noite: cinema no parque

Pipoca, tapete vermelho, cadeiras enfileiradas e uma grande tela: o cenário é de uma sala de cinema da cidade, certo? Errado. É a Sessão Extra de Cinema, uma iniciativa da rede de hipermercados Extra que leva ao grande público, a partir deste sábado (28), sessões gratuitas de cinema ao ar livre, com exibição de filmes nacionais. 0 primeiro evento, que ocorrerá no Parque do Ibirapuera, terá Lisbela e o Prisioneiro, sucesso de bilheteria com elenco global e direção de Guel Arraes. Além de São Paulo, mais oito capitais receberão o projeto em 2005. As próximas exibições por aqui não têm ainda local ou data definidos, mas a estrutura chama a atenção. Os filmes serão projetados em um telão inflável de 14 metros de comprimento por 9 metros de altura. 0 sistema de som é composto de quatro torres, mais caiaxas acústicas espalhadas por entre as 1.500 cadeiras disponíveis. Para completar o programa, os organizadores distribuirão pacotes de pipoca.

 

Sessão Extra de Cinema. Parque do Ibirapue-ra, Praça da Paz. Av. Pedro Alvares Cabral, s/n°, Ibirapuera. Dia 27, 20h30.

 

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O Estado de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Caderno 2, D-1

Próxima parada: Pólo Norte

Luiz Carlos Merten

Está começando a temporada natalina nos cinemas. A Warner corre na frente e estréia hoje O Expresso Polar, de Robert Zemeckis. Na seqüência, virão Um Natal Muito, Muito Louco, de Joel Roth, da Columbia, e o novo filme de Xuxa, O Tesouro da Cidade Perdida, que não é bem natalino, mas é uma das apostas da Warner (de novo) para o fim de ano. O Expresso Polar baseia-se no livro de Chris Van Allsburg que a Nova Fronteira também está colocando nas livrarias. Van Allsburg era escultor antes de virar ilustrador (e escritor) de histórias infantis. Você, muito provavelmente, já o conhece, mesmo que não tenha lido, de Jumanji, que virou filme de Joe Johnston com Robin Williams. Chega agora O Expresso Polar, que vários críticos americanos, num exagero evidente, andaram escrevendo que já nasceu 'clássico'.

 

Eles disseram a mesma coisa de Um Natal Muito, Muito Louco e você também vai ver que que não é só exagerado, como é absurdo. Mas O Expresso Polar não é programa para ser desprezado, um pouco pela história, que assume aquilo que se chama de 'espírito natalino', e outro tanto pelo virtuosismo técnico que virou a marca do diretor Zemeckis. Ele poderia, talvez, ter feito seu filme em versão live action, com atores de carne e osso interpretando os personagens de sua fábula de Natal. Preferiu seguir o caminho mais difícil, levando adiante a experiência de Peter Jackson em O Senhor dos Anéis, quando criou o Gollum. Zemeckis fez o que pode ser considerado revolucionário - convenceu um astro como Tom Hanks, que ganhou seu primeiro Oscar em Forrest Gump, o Contador de Histórias, que ele dirigiu, a transformar-se em personagem de animação. Aliás, em cinco diferentes personagens de animação.

 

Há 25 anos, outro pioneiro, Ralph Bakshi, fez American Pop, filmando cenas com atores que serviram de base para o desenho daquele filme que mapeava a cultura musical americana. American Pop virou cult, mas sua animação era, comparativamente, menos expressiva, até tosca. Zemeckis dá um show, mas a verdadeira revolução começou quando Peter Jackson desenvolveu a técnica chamada de motion capture para criar o Gollum. Ela consiste em captar os movimentos de um ator por meio de sensores ligados a câmeras acionadas por computadores, nos quais o personagem é desenvolvido digitalmente, sem que um só plano seja filmado. Ao fazê-lo, Jackson queria destacar o caráter não humano do personagem obcecado pelo anel. O Gollum superou toda expectativa. Resultou tão bom que sua interpretação foi simplesmente a melhor de 2002, fato que o Oscar, claro, ignorou, até porque seria escandaloso, do ponto de vista da indústria, dar um prêmio que representa prestígio e dinheiro para... quem? O ator que foi suporte para a criação do Gollum? A câmera digital?

 

Seja como for, a técnica naquele momento - menos de dois anos - era chamada de motion capture. Agora, por conta da entrada de Tom Hanks em cena, fazendo cinco personagens, virou performance capture. Por que Zemeckis adotou esse procedimento? Para ressaltar o caráter fantástico da aventura que narra. Pelo prazer de enfrentar um desafio técnico. Você, se acompanha a carreira do diretor, sabe que ele é chegado a essas empresas arriscadas. Em Uma Cilada para Roger Rabbit, misturou figuras de animação com atores (e criou a estonteante Jessica Rabbit). Em Forrest Gump, partiu de Zelig, de Woody Allen, para fazer com que Tom Hanks, representando o homem comum, dividisse a cena com grandes personalidades que marcaram a história americana no século passado.

 

Zemeckis, portanto, não inventa novos processos. No máximo, aprimora-os. Nem isso ele consegue fazer em O Expresso Polar. Há algo de clean, de antisséptico demais no visual do filme que estréia hoje, talvez por ser uma história infantil. Ela se desenrola na perspectiva do garoto que, na véspera do Natal, deitado em sua cama, espera por um ruído especial - o dos guizos do trenó que traz o Papai Noel. Mas o que o menino ouve é o apito de trem, o Expresso Polar do título, no qual embarca com destino ao Pólo Norte, para conhecer o local em que Papai Noel vive. É uma viagem que encerra múltiplas dificuldades - para ir e voltar, o que faz com que O Expresso Polar reabra a vertente mágica de O Mágico de Oz e E.T. - O Extraterrestre, ambos clássicos sobre a volta ao lar. A técnica é prodigiosa, o trem do Papai Noel é convidativo, mas você vai ver que o filme não é tão mágico quanto poderia (e até deveria) ser. Zemeckis ficou mais para Final Analysis, outra animação feita digitalmente, do que para o Gollum. Seus personagens são um tanto apáticos. A performance capture não capta a expressividade do olhar e o cinema, você sabe, desde Nicholas Ray, "é a melodia do olhar". A conseqüência é que se pode admirar o esforço técnico sem se emocionar com O Expresso Polar.

 

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Folha de S. Paulo – SP, 26/11/2004, Ilustrada, E-4

 

Os homens do presidente

TEREZA NOVAES

 

A estréia nacional hoje dos documentários "Peões", dirigido por Eduardo Coutinho, 71, e "Entreatos", de João Moreira Salles, 42, coloca não apenas seus nomes -já consagrados dentro do gênero- em destaque, mas acende um holofote (ou uma fogueira, dependendo do ponto de vista) sobre o presidente Lula, que faz a ponte entre os filmes.

 

Ele é a estrela de "Entreatos", que mostra os bastidores da reta final da campanha que o levou à Presidência, e dínamo de "Peões", que enfoca os companheiros de Lula nas greves da região do ABC no final dos anos 70.

 

Mesmo antes da estréia, os filmes já causam polêmica. Uma delas é o corte da entrevista com Luiza de Farias, 66, a funcionária da cantina do sindicato que disse que "Lula bebia, sim", em "Peões". Este é um dos episódios abordados na entrevista que os diretores concederam à Folha.

 

A ESCOLHA DE LULA

 

João Moreira Salles - Uma das funções do documentário é testemunhar alguma coisa, é dizer: foi assim. No caso do filme do Lula, foi um pouco esse desejo. A campanha de Lula, caso ele vencesse ou perdesse, seria histórica. Vencendo, foi a primeira vez que alguém da origem social do Lula chegou à Presidência da República no Brasil. Isso é histórico, independe de qualquer julgamento sobre sua capacidade de governar. Mas o fato de que ele pode ser eleito é um dado novo na história do Brasil. Se ele perdesse, seria histórico também, seria a constatação de que alguém como o Lula, com sua origem, não pode se tornar presidente no Brasil porque há uma resistência intransponível. Havia aí um fato inequívoco, único. E achei que era bacana poder ser uma testemunha disso.

 

 

Eduardo Coutinho - Nunca tenho idéias como: "Farei um filme sobre o movimento sindical". Aquelas caras nas fotos da época é que me interessavam. Quem são essas caras? Ninguém é anônimo, né? Me interessam o homem ordinário, a grande história e a pequena história. E surgiu a possibilidade de juntar isso. [O filme] não é sobre a greve. É sobre as pessoas que têm uma trajetória que passou pelas greves. Lula está lá porque é o grande líder.

 

 

ÉTICA COM O PERSONAGEM

Salles - A preocupação que você deve ter com o personagem é a mesma com todos, seja ele presidente, pianista, jogador de futebol, crente ou pastor de igreja. As questões precisam ser discutidas concretamente em cima de uma imagem, de uma cena. Não é só o que ele diz, mas como ele diz. Uma mesma frase dita com humor pode significar uma coisa, dita com rancor, outra. Uma é permitida, a outra talvez não seja. É um inferno ter que lidar com essas angústias, você não controla o sentido das coisas. O que me interessa no Lula é sua ambigüidade, o que me interessa em qualquer personagem é o fato de ser complexo.

 

 

Coutinho - Ela [Luiza] poderia se sentir traidora de um cara que admira, o Lula. Não foi um pedido de ninguém [retirá-la do filme]. Apenas entendi que um troço dito com inocência dois anos atrás continua sendo inocente depois da "denúncia" [a reportagem sobre os hábitos de beber do presidente, publicada pelo "New York Times"]. Mas senti que ela poderia ser prejudicada, não por ser traidora de classe, não por causa do sindicato. Vai haver uma projeção lá [em São Bernardo do Campo] e 50 pessoas que eu entrevistei foram convidadas. E sempre vai ter esta reação: "Você não deveria ter dito". Há dois anos não era nada. É terrível que isso se torne uma tempestade em copo d'água. A reação incompetente do governo de criar um caso é que tornou isso um assunto. Eu não precisava proteger o Lula, ele não precisa disso. Mas achava que precisava protegê-la.

 

 

LULA E O PT

Salles - Eu não tenho nenhum dever de guardar ou preservar uma imagem do PT. Não filmei o PT, filmei o Lula. A autorização me foi dada por ele. Meu compromisso maior é com o Lula, não é com o presidente. É com o personagem Lula, que é rigorosamente igual ao meu compromisso com qualquer personagem que eu tenha filmado até hoje. É claro que, quando você está lidando com uma pessoa que é o presidente da República, determinadas coisas ganham outro sentido. Ele dizer, por exemplo, que toma uma pinga ganha outro sentido.

 

 

INFLUÊNCIA MÚTUA

Salles - As discussões com o Eduardo me fizeram perceber uma coisa óbvia. Mais que o tema, o fundamental é pensar a maneira de abordá-lo. Não existe bom documentário que não seja também um raciocínio sobre o próprio documentário.

Exerço uma boa influência sobre o Eduardo: não deixar que ele se suicide simbolicamente. Não há um único filme em que o Eduardo não me ligue dizendo: "É uma desgraça, um horror". Aconteceu no "Edifício Master".

 

 

Coutinho - Mas, um dia depois do fim das filmagens do "Edifício Master", eu encontrei o João e disse: "Se a gente passar 60% da experiência que a gente teve, vai ser maravilhoso". Essa coisa de pessimismo é puro exorcismo. O dia em que eu não reclamar estarei morto.

 

Diretores discutem filmes no Rio

DA SUCURSAL DO RIO

 

Um mistério ainda cerca "Peões" e "Entreatos": o que Lula e a cúpula do PT pensam dos filmes de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles? Em debate realizado anteontem, no Rio, após a exibição dos dois documentários, Salles disse que enviou para o Planalto, em dezembro, uma versão maior do filme e, recentemente, a final, junto do longa de Coutinho. Resposta? Nenhuma.

"Nunca houve qualquer interferência de Lula nem de ninguém no nosso trabalho. E continua assim. Em nenhum documentário do gênero, algum diretor teve tanto acesso a um candidato como eu tive. É surpreendente que eu tenha podido ver tanto", afirmou.

Boa parte das perguntas da platéia do Cine Odeon BR explorou as supostas contradições entre o Lula de hoje e o metalúrgico e o candidato, dos filmes. "Como não acredito em grandes utopias, não estou frustrado [com o governo]. Mas é claro que não estou satisfeito", disse Coutinho. "O lamentável é que só haja um discurso possível. Mas antes ser cauteloso do que ser aventureiro", afirmou Salles. "Só que a cautela não é heróica", completou Coutinho.

Salles chamou de preconceituosas as críticas a Lula que têm saído na imprensa em razão de características suas mostradas nos filmes: o gosto pela cachaça, o prazer de usar ternos, o cuidado com a própria imagem.

"Estou convencido com as minhas vísceras de que Lula não produziu um falso Lula. A visão de que ele foi domesticado pelo marketing político é ingênua. O que fez o [publicitário] Duda [Mendonça] foi aproximar o Lula do Lula real", afirmou Salles, ressaltando o humor que o então candidato mostra no filme.

"Eu não quis terminar o filme de uma maneira épica, com o Lula sendo cumprimentado [pelo telefone] por [George W.] Bush e [Tony] Blair, porque governar o Brasil não é épico, é administrar miudezas", disse Salles.

 

Obras colocam homem comum no palco da grande história

JOSÉ GERALDO COUTO

COLUNISTA DA FOLHA

 

"Peões" (que compete hoje no Festival de Cinema de Brasília) e "Entreatos" são filmes opostos e complementares, que crescem em significado e impacto quando vistos um depois do outro -se possível nessa ordem.

O primeiro busca o sentido da história inscrito na pequena biografia de homens anônimos que foram companheiros de Lula no trabalho operário e sindical. O segundo trilha o caminho inverso ao buscar o íntimo, o "comum", no homem de trajetória pública e dimensão histórica.

Por conta de seus objetivos distintos, cada um dos documentários tem uma forma própria.

No de Eduardo Coutinho há 21 protagonistas, filmados em circunstâncias semelhantes: todos falam diretamente ao diretor sobre suas lembranças profissionais, políticas, familiares.

Grande parte da história social do país nas últimas décadas desfila então diante de nós.

A migração nordestina para o Sudeste, o auge da indústria automobilística, a resistência à ditadura, a modernização da produção, o aumento do desemprego -essas coisas todas, que lemos nos relatos jornalísticos ou nas análises sociológicas, aparecem ali vivas, concretizadas em vozes, risos, lágrimas e cicatrizes.

Já em "Entreatos", o protagonista é um só, o homem que subiu ao palco da "grande história" conduzido nos braços dos peões do filme anterior. Filmado nas mais diversas circunstâncias durante sua campanha à Presidência -da cadeira do barbeiro à gravação do programa eleitoral, do aniversário em família à reunião política-, Lula deixa ver o que persiste de comum no homem público, ou de "ordinário" no personagem "extraordinário".

Ao contrário do que ocorre em "Peões", em boa parte de "Entreatos" tudo se passa como se a câmera não estivesse lá. Essa naturalidade, obviamente, é enganosa: tanto Lula como seus coadjuvantes (parentes, assessores, correligionários) sabem que seus gestos e palavras estão sendo filmados.

Mas, como notou o diretor João Moreira Salles, essa construção que os personagens fazem de si mesmos é parte integrante deles. A dose de faz-de-conta de que lançamos mão na vida social também nos constitui, é parte da nossa verdade.

A própria participação do publicitário Duda Mendonça na constituição da imagem de "um novo Lula" é mostrada às claras. Mais reveladora, entretanto, é a sem-cerimônia com que um amigo de primeira hora do presidente, Ricardo Kotscho, pede a ele que pare de falar em seus discursos dos "grandes homens que não estudaram". "Essa conversa já encheu o saco", diz o jornalista.

Tudo é muito rico no jogo, captado por Salles, entre o "velho Lula" e o "novo Lula". Pena que muitos vão preferir pinçar nesses dois filmes memoráveis (em todos os sentidos do adjetivo) aquilo que interessa à luta política pequena e imediata, em vez de aprender o que eles têm a nos ensinar sobre nosso país e sobre nós mesmos.

 

Peões

 

Direção: Eduardo Coutinho

Produção: Brasil, 2004

Quando: a partir de hoje no Espaço Unibanco, Extra Anchieta, Frei Caneca Unibanco Arteplex e Metrô Santa Cruz

 

Entreatos

 

Direção: João Moreira Salles

Produção: Brasil, 2004

Quando: a partir de hoje no Espaço Unibanco, Extra Anchieta, Frei Caneca Unibanco Arteplex e Metrô Santa Cruz

 

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